
Construção da Identidade Nordestina por Outros
Por *Witor Hugo Guedes Larrea 09/10/2010
“Sabe por que Cearense tem a cabeça chata? Porque o povo batia na cabeça dele e falava : ‘boa sorte em São Paulo’”... Esse é um dos estereótipos mais comuns nas piadas discriminatórias que os Nordestinos ouvem no dia a dia, seja de um sulista, paulista, enfim, até mesmo preso a cultura dos nordestinos que sentiram na pele a discriminação, eles mesmos começaram a utilizar essas tristes falácias inventadas por aqueles que sempre se acharam superiores.
Por muitos e muitos anos a superlotação urbana e o inchaço das favelas das grandes capitais, foram atribuídas pela ida dos imigrantes, dos retirantes nordestinos para o sudeste e para o sul do país, “ocupando” subempregos que por muitos eram recusados, o nordestino era apenas mais uma mão de obra barata que servia para acrescentar o número de miseráveis, favelados e violência nos centros ditos desenvolvidos.
O que importa toda essa contextualização se agora vivemos em um modelo de sociedade diferente, onde as pessoas sentem orgulho de sua terra, pois ali tem seu sustento garantido, tem sua brasilianidade garantida, o estado começou a cumprir seu papel de ser, acima de qualquer coisa, responsável por cuidar das pessoas em vez de cuidar das coisas, , porque o governo federal entendeu que sem cuidar das pessoas as pessoas não cuidam do seu país, do seu estado, do seu município. Por isso que muitas políticas públicas de inclusão social foram tão importantes para que a realidade do Nordeste, mas principalmente do nordestino começasse a mudar, de uma maneira que desse dignidade para as pessoas criarem seus filhos, para que houvesse mais acesso a educação, a saúde, cultura, lazer, esporte, empregos, mas, principalmente comida na mesa.
Hoje, dia 09 de outubro de 2010, comemoramos o dia do Nordestino, o dia do Nordeste que faz esse povo tão guerreiro, tão aguerrido, lutador e que não se deixa mais levar por políticas assistencialistas, mas políticas que beneficiem a todos e a todas que moram nessa terra, mas entendem que o Brasil é multicultural, que todas as regiões precisam de um cuidado, de um carinho especial e que hoje em dia não aceita mais ser chamado de preguiçoso ou que todos os preguiçosos sejam chamados de “Baiano” ou que todo nordestino seja chamado de “Paraíba”, que os que tenham sotaques mais puxados sejam chamados de “Ceará”. Nada mais de termos pejorativos que depreciem a grandiosidade que nos colocam todos os dias na grande mídia, como pessoas que vivem a mercê de programas sociais, como Bolsa Família. Que no nordeste não existe água, que todas as cidades do Nordeste não tem asfaltos, que a carroça ainda é o principal meio de transporte.
Antes ainda vivêssemos nos meios que nos trouxessem entre os iguais (homens e mulheres) porém, hoje em dia o Nordeste, em geral, é um centro tecnológico desenvolvido. e muitas desigualdades sociais, mas, de muitas oportunidades também. No fundo tem um “Q” a mais que os outros lugares, porque é um lugar onde as pessoas se compreendem, por mais que pareça difícil de entender, é assim que funciona.
Agora, não suportamos mais certos tipos de discriminação que são colocados para nossa cultura, linguagem, manias e maneiras, a nossa religiosidade diversificada ou a ausência da mesma, as orientações sexuais que existem, das divergências de pensamentos e da liberdade que com muito suor conseguimos. Hoje o nordestino é reconhecido pelas suas conquistas e não por suas mazelas.
O Nordeste cansou de ser esquecido por seus governantes, cansou de ser dependente de outras regiões do país, cansou de ser explorado e de ter que agregar valor de mercado às pessoas e não valor humano ao cidadão, o nordestino cansou de ser humilhado pedindo para que ações do governo viessem se contrapor a ações humanas, nada mais justo do que crescer de maneira sustentável e finalmente sua hora chegou. Há oito anos conseguimos criar um país mais justo, mais independente, que todas as regiões são contempladas, com geração de emprego e distribuição de renda, onde pessoas se sentem valorizadas por ter acesso a um ensino superior de qualidade e onde as pessoas passaram a saber o que é dignidade.
No dia do Nordestino temos muito a comemorar nos avanços que foram colocados ao longo de oito anos do atual governo federal, porém, temos pouco a comemorar com relação a valorização da cultura e dos debates que são colocados pela sociedade em torno dos nordestinos. Queremos debates sinceros e que não sejamos colocados apenas como meros seres sem consciência política, dependentes de “esmolas”. Mas, que começaram a perceber que é sempre bom ter alguém que cuide de você, do povo, e da família desse povo que sempre teve seus anseios por mudanças drásticas na economia e na inversão de valores.
Chega de falar que nordestino ainda é “sub-raça”, “favelado”, “passa sede” e estereotipar de preguiçosos, ou alguém ainda acha que com 130 reais se sobrevive em algum lugar? As pessoas, hoje em dia, não votam pelo o que lhe dão, mas sim, pelo ‘como lhe dão’ e ‘para o que isso irá servir’. O bolsa família não é esmola e não é a sobrevivência absoluta, mas sim, uma nova perspectiva de comprar sementes para a terra, de comprar a linha da costura, de comprar a farinha do pão, de comprar a independência do governo...
Hoje viemos aqui não para defender um governo, mas para defender a sensibilidade de cada homem e mulher nordestino, a força de cada um deles e a dignidade de quem trabalha para conseguir se manter de pé todos os dias, com todas as dificuldades que lhe são impostas. Ser Nordestino é lutar todos os dias para que os preconceitos sejam derrubados e o Nordeste seja cada dia melhor!
Parabéns a todos e todas Nordestinas e Nordestinos pelo mundo afora.
*Witor Hugo é Licenciado em História pela Universidade Federal do Ceará e Estudante de Bacharelado em História da UFC.






